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MATOS, Júlia Silveira. AMOR, CASAMENTO E RELIGIÃO EM ROMA. Porto Alegre, 2008

Figura nº1: Fonte - marius.blogs.sapo.pt/
Figura nº2: Fonte - Fotografia da cena do casamento do filme Nero

A ritualística do casamento ocidental contemporâneo não é uma invenção cristã como muitos podem pensar. Entre os romanos “o casamento é, pois para moça, um ato de muita gravidade, e não é menos para o esposo”. (COULANGES, 2002:46). Há muito através de relatos de Historiadores antigos ou modernos como Fustel de Coulanges, percebemos a importância da intituição do casamento na cultura romana. Segundo Coulanges, essa foi a primeira instituição estabelecida pela religião doméstica. Entretanto, essa seria a visão que temos do casamento na antiguidade? Ou sua interpretação moderna costuma romantiza-la e simplifica-la diante de seu significado no tempo? Diante de questionamentos assim, no presente artigo buscamos analisar o fundamento e o significado desse ritual no mundo romano, através dos discursos de Fustel de Coulanges[1], Eva Cantarella[2] e Ovídio[3].
1. O casamento romano
O casamento romano foi conceituado de duas formas tradicionalmente. Para o historidor romântico Fustel de Coulanges em seu “A Cidade Antiga”, casar era antes de tudo um ato religioso, “era a cerimônia sagrada”, que servia para iniciar a jovem esposa no culto doméstico do esposo, o qual iria seguir daquele momento em diante. Dessa forma, o casamento romano seria um ritual de ordenação para a futura sacerdotiza do lar.
Notemos que esta religião do lar e dos antepassados, transmitindo-se de varão para varão, não pertenceu exclusivamente ao homem, pois a mulher também tomava parte no culto. Como filha, a mulher assistia aos atos religiosos do pai; depois de casada, aos do marido. Só por isto podemos avaliar o caráter essencial do matrimônio entre os antigos. (Coulanges, 2002:46).
Assim, conforme o historiador, a moça após casada abandonava os segredos da religião de seu pai, para aprender e sacrificar aos manes[4] do marido. Portanto, percebemos que o casamento entre os romanos, segundo Coulanges, não se constituia enquanto um ato de expressão de amor, mas, religioso. Entre os historiadores da antiguidade romana foi comum designar o casamento com palavras como telos, que significava cerimônia sagrada, ao invés de gamos seu nome peculiar.
A cerimônia do casamento pertencia a religião doméstica, não era celebrada perante Júpiter, ou Juno, mas diante do deus doméstico, o qual presidia o ritual. Somente posteriormente, em meados da República, quando a religião do templo se tornou preponderante, os romanos passaram a dividir o casamento em dois momentos : primeiro sacrifiava-se aos deuses no templo, cerimônia que foi chamada de prelúdios do casamento e depois realizavam-se as cerimônias diante do lar doméstico. Essa cerimônia dividia-se em três atos: traditio, deductio in domum, confarreatio.
O primeiro ato era a traditio, a tradição de desvinculação da jovem do lar paterno, realizada pelo pai, que como proprietário do culto doméstico, era o único que tinha poder para desfazer sua vinculação. Nesse ato a jovem deixava a casa do pai.
A deductio in domum concistia no cortejo em que o marido conduz a jovem a sua nova casa, nessa lhe apresente o fogo sagrado, símbolo da dividade doméstica, e a água lustral fundamental em todos os rituais sagrados. Antes de entrar na casa definitivamete, o esposo devia tomar a jovem nos braços simulando o rapto, de forma que atravesse a soleira da porta sem que seus pés a incostem.
No terceiro momento, o confarreatio, a esposa era levada diante do fogo, ao redor do qual deveriam estar todos os deuses domésticos e as imagens dos antepassados. Alí fazem um sacrifício, a libação e pronunciam orações. Perante o “testemunho” dos deuses e dos antepassados, esposo e esposa consagravam a união quando consumiam o bolo de flor de farinha e recitavam orações, e a partir desse instante uniam-se no mesm culto. A mulher casada ocupava o lugar de “filha de seu marido”, filiae loco, no dizer dos juriconsultos, pois passava a pertencer totalmente ao seu esposo. Na figura nº1 podemos obsevar a representação do momento em que os noivos partiriam o pão.
Conforme analisado por Fustel de Coulanges, o casamento romano não concistia em um ritual único. Mas, em um conjunto trino de atitudes da noiva e do noivo. O cinema em muito reelaborou essa imagem do casamento em Roma, conforme podemos observar na imagem nº2, cena do filme Nero, na qual o pai da noiva, imperador Claudio, partiu o bolo de flor de farinha e entregou seus pedaços aos noivos, conforme a figura nº2.
Após o fim desse conjunto ritualístico a mulher casada, segundo Coulanges, passava a participar da religião do marido. Mas, essa era a única forma de constituição do casamento? Claro que não, também existia a união por usus[5] e por coemptio[6], as quais o direito romano cedo permitiu a dissolução, enquanto que o divórcio do casamento religioso sempre foi mais dificultado. Para esse, entre os romanos, era necessária nova cerimônia ao redor do fogo sagrado, diante de testemunhas familiares e de um sacerdote, na qual esposo e esposa rejeitavam o bolo de flor de farinha que os unira.
Entretanto, em uma segunda conceituação, o casamento é apresentado como um ritual feminino de passagem para a vida “adulta”. A Historiadora Eva Cantarella, em sua obra “Pasado próximo: Mujeres romanas de Tácita a Sulpícia, argumentou que as pesquisas arqueológicas de Lavínio apontam para a possibilidade que tenha existido um momento na História romana em que as núpcias identificassem-se com o rito de passagem da infância para a puberdade[7].
Diante dessas duas conceituações é inegavel o caráter ritualístico da cerimônia do casamento, no entanto, ao contrário da constante romantização das relações apresentada pelo cinema, precisamos levar em conta que o casamento, segundo Coulanges, não se desvinula para os romanos de sua religião e “Esta religião ensinou ao homem que a união conjugal é bem mais que relação de sexos ou afeto passageiro, unindo os dois esposos pelo laço poderoso do mesmo culto e das mesmas crenças”. (COULANGES, 2002:52). Sendo assim, antes de um ato de amor era um ritual divino e tradicional que visava a continuidade e a manutenção da religião doméstica.
Entretanto, poderíamos questionar: O casamento como ritual anulava as relações amorosas? Claro que a resposta é não. Historicamente seria difícil tal afirmação, no entanto, em Ovídio, Arte de Amar, temos a conceituação do amor romano como aquele que desemboca no sexo, conforme nos afirmou o professor Harry Bellomo. Para o romano, o conceito de amor, platônico, contemplativo era inexistente. Segundo Bellomo, “Para os romanos o amor é um sentimento muito forte, muito poderoso, eles não descartavam o sentimento, mas o importante era o sexo”. (BELLOMO, 2006:158). Essa conceituação se distancia da proposta de amor cristão que de forma independente se completa no ato sexual. Como testemunharam a obra de Ovídio e muitos murais de Pompéia, a complexificação das relações homem/mulher pelo amor eram descartadas pelo romano em prol de uma vida prática de prazeres. Dessa forma, o casamento não era a materialização do amor, mas, a perpetuação do rito religioso e da espécie.
BIBLIOGRAFIA
BELLOMO, Harry R. Amor e sexualidade na Roma Antiga. In: FLORES, Moacyr (org.). Mundo Greco-romano, O Sagrado e o Profano. Porto Alegre. EDIPUCRS, 2006.
CANTARELLA, Eva. Pasado próximo: Mujeres romanas de Tácita a Sulpícia. Valência. Ediciones Cátedra, 1997.
COULANGES, Fustel. A Cidade Antiga. São Paulo. Editora Martin Claret, 2002.
FERRO, Marc. A história vigiada. São Paulo. Martins Fontes, 1989.
FLORENZANO, Mª Beatriz. O mundo antigo: economia e sociedade. São Paulo. Editora Brasiliense, 1986.
VAINFAS, Ronaldo. Casamento, Amor e Desejo no Ocidente Cristão. 2 ed. São Paulo. Editora Ática, 1992.
[1] Fustel de Coulanges (1830-1889) foi um historiador francês que ocupou a cadeira de História da Idade Média na Sorbonne e dirigiu a École Normale Supérieure.
[2] Eva Cantarella é historiadora, publicou a obra Pasado próximo: Mujeres romanas de Tácita a Sulpícia, em 1996 pela Gianciacomo Feltrinelli Editore.
[3] Publius Ovidius Naso, poeta e historiador Romano que escreveu a Arte de Amar. Nasceu em 20 de março de 43 a.C. em Sulmo, atual Sulmona, em Abruzos, Itália.
[4] Na mitologia romana, os Manes eram as almas dos entes queridos falecidos. A sua veneração está relacionada com o culto aos antepassados. Como espíritos menores, estavam também relacionados com os Lares, os Genii e com os Di Penates. Eram honrados durante a celebração das Parentalia e das Feralia, em Fevereiro.
[5] O casamento também podia consumar-se mediante o usus, esse era o reconhecimento se a mulher vivesse com o marido durante um ano sem ausentar-se por mais de três noites.
[6] O casamento tomava a forma de coemptio, uma modalidade simbólica de compra com o consentimento da noiva.
[7] Em conclusión, las excavaciones de Lavínio no se limitan a suministrar confirmación histórica de la existencia en el Lácio de cambios públicos de status. Además apuntam la possibilidad de que haya existido un momento en la historia de Roma en que las nuptiae se hayan identificado con el rito ciudadano de tránsito de la edad púber”. CANTARELLA, Eva. Pasado próximo: Mujeres romanas de Tácita a Sulpícia. Valência. Ediciones Cátedra, 1997, p. 58.

MATOS, Júlia S. Roteiro para a produção da resenha analítica. Porto Alegre, 2007.

Júlia S. Matos[1]

A resenha é uma das modalidades analíticas mais cobradas pelos professores dentro dos cursos superiores na área de Ciências Humanas. Muitas vezes é exigida do aluno antes mesmo desse apreendê-la na disciplina de Metodologia da Pesquisa. Esse fato leva muitos alunos a questionarem o que é uma resenha. Sendo assim, no roteiro que aqui apresentamos visamos auxiliar alunos que iniciam seus passos nos caminhos da pesquisa.
A resenha objetiva fornecer uma apreciação crítica sobre determinada obra, ou seja, é uma análise interpretativa de um documento. Geralmente essa modalidade interpretativa é publicada em periódicos especializados, jornais e revistas. No entanto, também pode ser utilizada como método de leitura e fichamento, etapas que auxiliam no processo de construção da pesquisa. Segundo Silvana Drumond Monteiro (1998), o ponto forte de uma resenha é a visão crítica do intérprete. Além, é claro, do cuidado com o resumo da obra analisada que deve ser apresentado. Dessa forma, sistematizamos a seguir um roteiro para construção da Resenha analítica:

INTRODUÇÃO GERAL: do tema e apresentação dos objetivos da Resenha.
SISTEMATIZAÇÃO: vida e obra do autor (breve relato da vida do autor relacionado com a obra); contextualização (momento de produção da obra), síntese do tema pela ótica do autor; divisão dos capítulos (resumo analítico dos capítulos).
ANÁLISE DO CONTEÚDO:
Periodização: analisar como o autor selecionou o período analisado na obra, a diacronia dos acontecimentos, ou seja, como a sucessão de fatos é estabelecida, se em ordem cronológica ou não.
Análise das fontes: analisar como o autor selecionou e interpretou as fontes para produção de sua obra, se essas são primárias, secundárias ... etc.
Hierarquização das idéias: discutir e analisar quais idéias o autor apresenta na obra e como ele hierarquizou-as, ou seja, em ordem decrescente da mais importante para a menos.
Visão de História: qual olhar sobre a História o autor apresenta na obra, se é materialista, psicológico, mitológico, cultural, ou seja, qual é, em sua visão, o motor da História, o ponto desencadeador dos acontecimentos.
BIBLIORAFIA: Obras utilizadas como auxílio interpretativo para a produção da resenha.


BIBLIOGRAFIA:
LOPES, Marcos A. Roteiro para elaboração de resenha científica. (texto para aula).
MONTEIRO, Silvana Drumond. Elaboração de resumos e resenhas. Londrina. Ed. UEL, 1998.

[1] Doutoranda em História das Sociedades Ibero-americanas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e professora de História Medieval na Fundação Universidade Federal do Rio Grande – FURG, julmatos@universia.com.br

MATOS, Júlia S. Da ascensão do cristianismo à desintegração do Império Romano: O nascimento da Era Feudal. Porto Alegre, 2007.

Por Júlia Matos[1]

“Indubitavelmente a História se faz com documentos escritos. Porém também pode fazer-se, deve-se fazer, sem documentos escritos se estes não existem. (...) Portanto, com palavras. Com signos. (...)Em uma palavra: com tudo o que sendo do homem, depende do homem, serve ao homem, expressa o homem, significa a presença, a atividade, os gostos e as formas do ser do homem”. (Lucien Febvre, Combats pour l’histoire, Armand Colin, Paris, 1953, p. 428).

1.1 A DIVISÃO DA HISTÓRIA E O SURGIMENTO DO TERMO IDADE MÉDIA

A disciplina de História, enquanto ciência humana, é constantemente moldada e reconstruída, é alvo de inúmeras discussões teóricas. De geração em geração, a ciência histórica parece abandonar a pele que lhe envolve e adquiri outra, como uma serpente, a fim de se renovar e permanecer viva. Seus métodos e fontes são reavaliados e criticados com freqüência e sua divisão em grandes períodos é fruto da eleição, por historiadores, de marcos divisores que demonstrem rupturas entre a temporalidade das sociedades, demarcando suas transformações. Mas, diante de tantas escolhas e eleições individuais, podemos nos perguntar: a História quadripartida como estudamos de fato apresenta rupturas entre seus períodos? Aonde terminou a História Antiga e iniciou a Medieval? Quais heranças o homem medieval recebeu da antiguidade?
No presente artigo, temos por objetivo analisar a formação da Era Feudal, como assim chamaremos nesse trabalho, suas heranças do mundo romano e do cristianismo, quais as semelhanças com a antiguidade e seus distanciamentos, visando assim, identificar as características identitárias desse período. Para tanto, iniciaremos com uma breve discussão sobre a nomenclatura do período e logo a seguir analisaremos o processo de transformação ou “desintegração” do mundo antigo e o nascimento dessa nova Era.
Antes de tudo, é preciso considerarmos que a História começou a ser escrita a partir dos eventos presentes, como forma de preservação da memória, se considerarmos as obras de Heródoto, Tucídides, Políbios ou Tácito, entre outros. Não podemos negar que figuras como Plutarco recorreram a memória de grandes Líderes como Alexandre Magno para enaltecerem homens do presente e seu olhar era voltado para o antigo e para o presente. No entanto, a partir dos séculos IV e V d. C., conforme estudo de Jean Glénisson (1979), com a ascensão da mentalidade cristã os estudiosos entenderam ser necessário uma divisão da História baseada nas escrituras.

O profeta, efetivamente, interpretara neste sentido a visão atribuída a Nabucodonosor: uma estátua, com a cabeça de ouro, o peito e os braços de prata, o ventre de cobre, as pernas e os pés de ferro, parte de barro (Daniel, II, 31-46). Explicação semelhante dera ele à sua própria visão, em que lhe apareceram, surgindo do mar, o leão com asas de águia, o urso, o leopardo e um quarto animal, ‘espantoso, terrível e fortíssimo, dotado de dez chifres’ (VII, 3-28). Os historiadores cristãos viram aí a sucessão das quatro monarquias universais: assírios-babilônios, medo-persas, macedônios e diadocos, romanos. O Império de Roma não deveria ter sucessores: a manutenção de um Santo Império Romano Germânico, o Império de Bizâncio, permitiam fazer-se coincidir a realidade com a teoria. (GLÉNISSON, 1979:43-44).

A mentalidade cristã, entre os séculos IV e V d. C. influía nos rumos dos estudos históricos produzidos e conforme nos afirmou Glénisson na citação acima, a divisão quadripartidária apareceu não para facilitar o entendimento da História da Humanidade, mas para encaixa-la nas profecias de Daniel. Mais adiante, entre os séculos VI e VII, o seguidor de Santo Agostinho, Isidoro de Sevilha dividiu a História em seis idades: a primeira seria de Adão até Noé; a segunda, de Noé a Abrão; a terceira de Abrão a Davi; a quarta de Davi ao cativeiro babilônico; a quinta seria até a encarnação do Salvador e a última, na qual vivia duraria até o fim do mundo. Esses dois sistemas foram empregados durante muitos séculos e segundo Jean Glénisson, somente foram abalados a partir do surgimento das histórias nacionais por volta do século XIII. Surgia, assim, uma historiografia dinástica que se consolidou até o século XVI como a nova forma de divisão histórica. Entretanto, o economista e filósofo francês do século XVI, Jean Bodin optou pela adoção de três períodos da História. Esses tinham como característica a valorização dos traços psicológicos dos grupos raciais, além de observações antropológicas, climáticas e geográficas. Esse traço, percebemos como, característico nos estudiosos humanistas, que abandonaram as “... as velhas repartições do tempo nascidas na Bíblia” (GLÉNISSON, 1979:45), e tenderam apenas para a distinção entre antiguidade e tempos modernos.
Em meio a essa transformação no olhar histórico, apareceu nos trabalhos do professor da Universidade de Halle, Cristóvão Keller, a distinção de três períodos na História. Sua idéia ganhou forma em suas obras História Antiqua (1685); História medii aevi (1688) e uma História nova (1696). Essa divisão de Keller, segundo Marc Bloch (2001), não era novidade, vinha em formação a pelo menos duzentos anos. Para o historiador, o termo “idade média” tinha origem no vocabulário do profetismo semi-herético que pregava o fim da velha Lei com a Encarnação do Salvador, o estabelecimento do reino de Deus, e a esperança do dia bendito que esse retornaria. Sendo assim, o tempo presente era apenas uma idade intermediária, um médium aevum. De acordo com Bloch, o termo surgiu com uma característica positiva que foi desviada pelos humanistas. Esses afirmavam ser a “idade média” um “intervalo de ignorância entre a antiguidade clássica e o reaparecimento do culto das belas-letras, no fim do século XV e começo do XVI,” (GLÉNISSON, 1979:46). Conforme discutem Bloch e Glénisson, o termo idade média foi utilizado pela primeira vez sob um olhar religioso para interpretar profeticamente a História e em seus desdobramentos foi resignificado, como forma de expressar forte crítica ao sistema opressor que a Igreja vinha impondo.
O termo não possui pai determinado, muitos indicam Hartmann Schedel médico alemão que em 1493 escreveu seu Opus de Histotiis eatatum mundi e inseriu um capítulo intitulado De progressu Imperii ac translatione in Germanos”, como seu inventor, outros a Giovanni Andréa de Bussi, Bispo de Aleria, que empregou o termo “media tempestas”, em uma edição romana de Apuleu, a qual dedicou ao Papa Paulo II, ou ainda os inúmeros estudos como de Bloch e Glénisson sobre as possíveis origens da expressão. Sem nascimento determinado o que vale para o presente estudo é que a Idade Média ou Era Feudal não foi entendida pelos homens de seu tempo, mas pelos estudiosos que a analisaram posteriormente, dessa forma, cabe a cada um de nós percebemos quando ela nasce e quais heranças carregou da antiguidade. Nesse momento, poderíamos nos perguntar: Mas por que então dividir a História? Para responder a tal questão, o historiador inglês R. G. Collingwood (1986), afirmou que o emprego da periodização e da interpretação à História sinaliza o amadurecimento do pensamento histórico, que para ele, é não somente capaz de precisar, como também de julgar.
Todavia, a História ganhou na contemporaneidade uma divisão quadripartidária, com datas estabelecidas e eventos eleitos como fronteiras entre os períodos demarcados. Tradicionalmente, a Idade Média ou Era Feudal, é dividida em Alta e Baixa Idade Média, a primeira iniciaria no século V e a segunda no século XI e terminaria com a ascensão das grandes navegações no século XV, mais precisamente com a queda de Constantinopla em maio de 1453, conquistada pelo Império Otomano, liderada pelo sultão Maomé II. Nesse sentido, nossa preocupação é demonstrar que não podemos estudar a História como se seus períodos fossem independentes, na verdade é fundamental que façamos retrocessos temporais em nossas análises a fim de compreendermos o processo de formação das estruturas dos eventos eleitos.
Portanto, para estudarmos a Era Feudal, entendemos necessário retornarmos a supressão da República e fundação do Império Romano, em meio a conseqüente ascensão do cristianismo.
1.2 AS RAÍZES DA ERA FEUDAL E DO CONCEITO DE ORDENS

Para falarmos de nascimento de uma nova era, primeiramente precisamos considerar os vestígios de transformação da mentalidade social do período. Nesse sentido, atentemos para a estrutura tripartida da sociedade medieval, diferente da romana que em primeiro momento dividia-se apenas em plebeus e patrícios, que se funda muito antes do século V, pois é na desarticulação do sistema republicano e fundação de uma mentalidade de ordens que encontraremos as raízes que perseguimos. Dessa forma, as origens das principais características da Era Feudal podem ser encontradas no processo de desestruturação da República romana, momento que podemos perceber o nascimento do conceito de ordo nessa sociedade. Na Roma republicana não é difícil encontrarmos a seguimentação social e a primitiva formação de um conceito de ordo, conforme passaremos a analisar.
Em seu processo expansionista, conforme estudo de Catherine Sales (2002), Roma permitia que suas províncias mantivessem suas identidades econômicas. Essa diferença entre as regiões anexadas criou uma interdependência entre as províncias e as metrópoles, pois dependiam das últimas para o escoamento das mercadorias. O sistema econômico interdependente gerou grandes acúmulos de riquezas para Roma. No entanto, o expansionismo afastava o camponês da terra e em conseqüência formaram-se grandes propriedades com produção voltada para o mercado. A formação desses latifúndios gerou o êxodo rural e o aumente do proletariado urbano.
Nesse processo de expansão da República romana, constituíram-se dois grupos distintos: os senadores e os cavaleiros. Em 218 a. C., conforme nos afirma Ohlweiler (1990), o grupo de cavaleiros tentou refrear o enriquecimento das senadores e superá-los através da aprovação da Lei Claudia, que proibiu ocupantes de cargo no senado e seus filhos de possuírem navios com capacidade de transporte superior a 80 hectolitros[2].
Esse foi apenas o primeiro passo para o aumento de poder do grupo eqüestre, ou cavaleiro. Em fins do século III, os cavaleiros eram escolhidos para ocuparem as funções oficiais do exército e para governarem as províncias, assim, passaram a ter importante papel de voto na Assembléia. Os dois grupos tornaram-se a força do Estado e seus interesses opostos eram os únicos que enfraqueciam o sistema republicano. Dessa forma, segundo Aymard & Auboyer (1976), Cícero (106-43), durante seu consulado almejou a união das “ordens” eqüestre (cavalaria) e senatorial.
Como vemos, desde o século III a. C. a sociedade romana passou a ser dividida em três odens distintas: a senatorial (composta por proprietários de terras e magistrados), a eqüestre (composta pelos cavaleiros generais do exército) e por fim, os trabalhadores camponeses (grupo que se subdivide em livres e escravos).
Esse panorama social se intensificava com a expansão dos latifúndios e supressão da pequena propriedade. Para Maria Beatriz Florenzano (1986), esses proprietários de grandes extensões de terras passaram a buscar mão-de-obra fora de Roma, que poderia ser escrava ou livre. Entre os romanos a definição de livre, segundo Pierre Grimal (1990), era muito particular, pois, esse deveria não ser dependente de nada e de ninguém, apenas sobreviver de sua herança, essa situação gerou ociosidade entre a elite governante. Diante dessa situação, a massa escrava cresceu dentro do território romano e entre 135 e 73 a. C., conforme discorreu Florenzano, estouraram as maiores rebeliões de escravos, vistas dentro de Roma, a “última” ficou famosa por ser liderada pelo gladiador Espártaco.
Com uma massa empobrecida e o crescimento do número de escravos no meio urbano, instaurou-se uma situação de guerra civil latente e, segundo Norma Mendes (1988), foi esse contexto que instigou as tentativas “falidas” dos tribunos irmãos Graco, entre 133-122 a. C., de implantação da Reforma Agrária. Assim, o grupo dos senadores precisou recorrer aos eqüestres para terminar com os conflitos sociais e continuar o processo expansionista romano. Para tanto, em 104 a. C. o general Cario Mário, apoiador pelos eqüestres, foi eleito cônsul. De acordo com Norma Mendes, durante seu governo permitiu o ingresso de soldados sem bens, os proletários (que possuíam apenas a sua prole), estipulou o soldo e distribuiu terras entre os soldados aposentados, acabou forçado a abdicar e morreu em 86 a. C. O consideramos figura de transição entre o fim da República e a implantação do Império, justamente pela sua atuação no processo de centralização do poder.
Tradicionalmente a fundação do Império Romano é delegada a astúcia de Otávio Augusto em 27 a. C. no entanto, precisamos atentar para o processo de absolutização do poder desencadeado muito antes da ascensão de Otávio. Depois de Caio Mário no século I a. C., vemos na figura do general Lucio Sila a mais determinante no processo de desarticulação da República. Ele, de acordo com Aymard e Auboyer (1976), ascendeu ao consulado apoiado pela nobilis latifundiária e acabou proclamando-se ditador vitalício dictator rei publicae constituendae causa em 86 a. C.[3], com o auxílio do exército. Desde a Monarquia, Roma não vivenciara um governo ancorado na figura de um único homem, apesar de em seu sistema político prever a eleição de um ditador por até seis meses em caso de crise extrema.
Silas deu o primeiro passo para a fundação do Império e supressão da República, ao centralizar o poder em suas mãos. O ditador perseguiu os apoiadores de Caio Mário, confiscou-lhes o bens e excluiu-os dos cargos, aumentou o poder dos senadores e restringiu o poder da plebe. Silas conseguiu reunir em seu apoio o senado e o exército e com o aumento do poder do último deu início a uma nova forma de governo público. Em face da absolutização do poder, Cícero, conforme Aymard e Auboyer (1976), se levantou em defesa da República e dois anos depois em 79 a. C., Lucio Sila deixou o poder.
A República voltou à normalidade até que em 59 a. C. foi eleito o primeiro triunvirato, uma aliança informal, entre o cônsul Júlio César, Pompeu, o Grande e Marco Licínio Crasso. Ao contrário do segundo triunvirato esse não tinha valor jurídico. Mas, logo a união se desfez, Crasso foi assassinado pelos Persas em uma batalha desastrosa e a amizade entre Pompeu e César ficou abalada com a morte de Júlia.[4]
Segundo Ohlwailer (1990), Pompeu aproveitou-se da ausência de César, que estava em campanha na Gália, para fazer alianças e eleger-se único cônsul. Ao saber do ocorrido em Roma, César reuniu seus exércitos e marchou contra Roma. Pompeu ao perceber que perdia a batalha fugiu para o Egito aonde foi assassinado. Insatisfeito com o desfecho César seguiu-o até o Egito, aonde recebeu em uma bandeja sua cabeça. Indignado por ver um romano profanado, lutou contra o Egito, conquistou-o e colocou Cleópatra no trono em 47 a. C. Em seu retorno para Roma venceu várias batalhas e entrou na cidade vitorioso. Auto proclamou-se ditador vitalício/perpétuo. Em seus dez anos de governo tornou-se popular por suas ações, distribuiu terras aos soldados, reduziu as dívidas dos camponeses, construiu prédios públicos, modificou o calendário romano[5] e emitiu moedas com sua esfinge. Assim como era amado pelo povo devido as suas atitudes, se tornou odiado pelo senado que o via como ameaça à continuidade de seus interesses, por isso conspiraram e o mataram.
O senado se viu em condição difícil, pois o povo esperava um sucessor indicado por César. Diante dessa situação, Marco Antônio aspirando ao poder e como um dos principais generais de César, leu seu testamento, no qual o cônsul morto o teria indicado, juntamente com Otávio, neto de sua irmã e seu filho por “adoção”, como seus herdeiros. Assim, formou-se o segundo triunvirato, com os generais: Marco Antônio, Lépido e Otávio. Este triunvirato, segundo Aymard e Auboyer (1976), foi uma aliança política formal, com o nome oficial de Triunviros para a Organização do Povo (em Latim: Triumviri Rei Publicae Constituendae Consulari Potestate). Tornou-se legal pela Lex Titia e aprovado pela Assembléia do Povo, conferindo poderes universais aos três homens por um período de cinco anos. Pelo período de crise em que se encontrava a República após o assassinato de Júlio César, justificou-se a constituição do segundo triunvirato e atribuição de poderes excepcionais a António, Otávio e Lépido.
No entanto, Lépido acabou eliminado progressivamente e o “Império” que nascia foi dividido entre Marco Antônio que ficou com o Oriente e Otávio então chamado César que ficou com o Ocidente parte da África e Sicília. Marco Antônio envolveu-se com Cleópatra, o que desagradou o senado e a Otávio. O então cônsul do Ocidente, Otávio, com a morte de Fulvia esposa de Marco Antônio, o fez casar com sua irmã Otaviana, com o intuito de trazê-lo novamente para Roma. O que de fato não ocorreu, pois, Marco Antônio não deixou o Egito.
O senado indignou-se quando Marco Antônio casou-se no Egito com Cleópatra e ofereceu-lhe parte do território anexado por Roma. Otávio aproveitou-se do posicionamento do senado e declarou guerra contra Marco Antônio e Cleópatra. O Cônsul romano acabou vitorioso na Batalha de Ácio em 31 a. C. Diante da derrota Marco Antônio morreu entregue as bebidas e Cleópatra com sua morte e o assassinato de seu filho Cesário, suicidou-se com a mordida de um cobra. A vitória foi completa, o Egito definitivamente caía nas mãos de Roma e Otávio não tinha mais adversários, o caminho para a fundação de um Império estava livre.
Segundo Aymard e Auboyer (1976), Otávio procurou manter a estrutura republicana do governo, por isso, em Roma governava como cidadão e nas províncias como general. O senado cumulou-o de títulos e poderes.
1. Poder Tribunício: tornava-o o imperador sacrossanto e inviolável.
2. Império Proconsular: dava-lhe o comando absoluto do exército em todas as províncias.
3. Pontífice Máximo: conferia-lhe a chefia da religião romana.
4. Princeps Senatus: dava-lhe o privilégio de primeiro cidadão do Estado e o direito de governar o Senado.
5. Imperator: título reservado a generais vencedores e conferido a Otávio pelos soldados.

Entretanto, o título decisivo para o fim da República foi o de Augustos (escolhido dos deuses), o qual recebeu em 27 a. C. Esse fato inaugurou o culto ao imperador e o início do principado. A partir da institucionalização do culto ao imperador, os romanos passaram a cultuá-lo em casa, além de seus ancestrais. Augusto fez inúmeras reformas que mudaram para sempre a antiga organização republicana e que foram contundentes para o cenário medieval que se formaria mais adiante. Uma das mudanças importantes foi a hierarquização da sociedade a partir do critério econômico, ou seja, os cidadãos teriam direitos proporcionais aos seus bens. Como podemos ver, ele institucionalizou as três ordens sociais, o que a sociedade já concebia, chamadas: Senatorial, eqüestre e inferior. Além disso, ele encorajou as famílias a retornarem ao campo e dividiu as províncias em militares e civis, governadas indiretamente pelo Imperador e diretamente por seus designados. Conforme o que já tratamos, notemos que até os princípios do século I d. C., já temos cinco importantes ingredientes para formação das bases feudais:
1. A formação de uma sociedade de ordens
2. A centralização do poder nas mãos do princeps
3. A união do Estado e da Religião
4. A ruralização da população
5. A divisão dos territórios em civis e militares: governados pelo Imperador e por seus governadores os legati Augusti (legados de Augusto), homens fiéis a ele.

Entretanto, ainda faltavam alguns ingredientes fundamentais que somente seriam agregados com a ascensão do cristianismo e a chegada dos povos “bárbaros”. Sendo assim, o Império fundado por Augusto continuava a desenvolver-se e a ampliar seus territórios. Para Otto Alcides Ohlweiler (1990), as bases do feudalismo somente foram estabelecidas durante o governo de Diocleciano e de Maximiano entre os séculos III e IV d. C. No entanto, como vimos até aqui, essas características basilares já vinham em formação desde a crise da República romana.
1.3 A ERA DOS IMPERADORES: AS DINASTIAS

No século I d. C., após a morte de Augusto, Tibério seu filho adotivo o sucedeu. Esse foi considerado um bom administrador, apesar de déspota, começou a ter problemas quando dissolveu a assembléia do povo e foi acusado pelo assassinato do general Germanicus. Iniciou, então, uma série de perseguições que somente pararam quando Calígula, filho de Germanicus, assumiu o governo em 37 d. C., após a sua morte. Ele restabeleceu a Assembléia do Povo e o atendimento as províncias. Calígula por ser sobrinho-neto de Tibério, pois seu pai Germanicus era sobrinho do mesmo, deu continuidade a dinastia Julio-Claudiano fundada em 14 d. C. e que terminaria com Nero em 68 d. C. Calígula após muitos sinais de loucura, marcados por seu estilo oriental e por sua fixação em vestir-se de Júpiter ou Apolo, o levaram a ser assassinado pela guarda pretoriana. Quem assumiu, conforme analisou Ohlweiler, foi Cláudio, seu tio, casado com sua irmã Agripina, a jovem, mãe de Nero Cláudio César Augusto.
Efetivamente, Cláudio reinou entre 41 e 44 d. C. e ficou conhecido como um imperador fraco, e ao que parece era Agripina que governava de fato. No entanto, durante seu governo favoreceu a ascensão dos cavaleiros. Sua esposa Agripina, tradicionalmente, foi acusada pela historiografia romana de conspirar sua morte para colocar seu filho Nero no poder, em detrimento do filho legítimo de Cláudio. Assim, após a morte de Cláudio em 54 d. C., Nero assumiu e durante os cinco primeiros anos fez um bom governo, auxiliado pelo filósofo Sêneca e pelo General Burrus integrante de sua guarda pretoriana. Segundo Aymard e Auboyer (1976), depois desse período Nero foi consumido por uma paranóia e revelou-se um tirano perverso, mandou matar sua mãe, seu irmão Britanicus, a primeira esposa e sua segunda esposa Otávia, filha do imperador e seus mestres Sêneca e Burrus. Esse contexto de perseguição gerou revolta no exército e no Senado e Nero acabou suicidando-se, em 68 d. C.
Ainda em 68 d. C., começou na Gália uma crise militar, pois com a ascensão da ordem eqüestre, cada exército acreditou poder indicar o imperador. Instaurou-se um estado de Guerra Civil e o exército dividiu-se em três frentes: o exército do Reno – com soldados gauleses; do Oriente com soldados da Ásia e a frente do Danúbio. Seus generais aspiravam ao cargo de imperador e por isso chegaram a ser proclamados quatro imperadores simultaneamente. Toda essa convulsão militar somente acabou quando as três frentes militares se uniram para proclamar Tito Flávio Vespasiano imperador em 69 d. C., o iniciador da dinastia dos Flávios que durou até 96 d C.
Vespasiano, como ficou conhecido, pertencia ao exército do Oriente, oriundo da cavalaria, assumiu o Império em Guerra Civil e restaurou a paz. Como proposta para impedir outra convulsão militar e civil na futura sucessão imperial, Vespasiano cedeu ao seu filho Tito o Poder Tribunício e o Impérium Procunsular, como forma de integrá-lo ao governo e faze-lo conhecido entre o exército. A primeira tarefa que concedeu ao seu filho Tito foi terminar com os levantes de judeus na Gália e na Judéia.
Os conflitos entre o Império romano e os judeus foram desencadeados durante o governo de Calígula, pois até então os judeus tinham diversos privilégios como a preservação de seu culto monoteísta e a permissão para não cultuarem o imperador. O problema iniciou quando Calígula ordenou que fosse colocada sua estátua dentro do templo em Jerusalém, mas, diante do perigo de insurreição na província acabou suspendendo a ordem. Durante o governo de Nero, em meio a desestabilidade do governo, em 66 d. C., os judeus deram início a Guerra pela libertação da Judéia, contra Roma. A guerra foi controlada em 70 d. C., quando Tito destruiu Jerusalém, seu Templo e dispersou seus habitantes, a chamada diáspora judaica. Seu pai Vespasiano conseguiu restaurar as finanças do Império, segundo Edward Gibbon (2005), através do aumento de impostos e da limitação dos gastos públicos, uma de suas grandes obras foi a construção do Coliseu.
Após a morte do Imperador Vespasiano, Tito assumiu por um curto período entre 79 e 81 d. C., considerado um ótimo governante, foi durante seu reinado que o Vesúvio soterrou Pompéia e Herculano. Em 81, seu irmão Domiciano tornou-se Imperador, procurou governar como soberano absoluto e foi duro com os senadores, filósofos, cristão e judeus. Durante seu reinado os cristãos foram perseguidos com aspereza. Empenhou-se em defender as fronteiras do Império no Danúbio, Reno e Bretanha. Esmagou a revolta do chefe da Germânia Superior e acabou assassinado durante uma conspiração palaciana. Encerrou-se assim a dinastia dos Flávios.
Como forma de impedir revoltas, o Senado elegeu o senador Marco Coceio Nerva em 96 d. C., oriundo da Gália, que governou até 98 d. C. e adotou Trajano como filho, para sucede-lo. Sua dinastia foi chamada de Antoninos devido ao legado de Antônio Pio e é considerada pela Historiografia como o período do apogeu do Império. Seu rápido governo se deveu a sua idade avançada e apesar disso foi considerado um bom imperador.
Trajano subiu ao trono em 98 e permaneceu até 117 d. C. era general e governador da Germânia Superior. Tornou-se popular por ter suavizado a tributação, introduzido o crédito agrícola a juros baixos, com benefícios para os pobres, também por ter empreendido conquistas militares, anexado a Dácia, guerreado com o Império Parta e anexado a Armênia e a Alta Mesopotâmia. Como sucessor, após sua morte, Trajano teria deixado Adriano, adotado em seu leito de morte.
Adriano reinou entre 117 e 138 d. C. e teve que enfrentar nova revolta dos judeus entre 132 e 135 d. C. Adriano conseguiu acabar com a insurreição, segundo Otto Alcides Ohlweiller (1990), inúmeros judeus foram mortos, os sobreviventes foram proibidos de permanecerem na Judéia, senão uma vez ao ano. A província foi rebatizada de Síria Palestina e outros povos foram encorajados a habitarem a região. Após essa segunda expulsão os judeus somente retornaram a região em 1948 com a criação do Estado de Israel pela ONU. Seu sucessor foi Antônio Pio que reinou entre 138 e 161 d. C. adotou o codinome Pio, por suas ações consideradas piedosas como o conjunto de leis que escreveu para proteger os escravos e a reforma do código penal na qual declarou que todo acusado é inocente até que se prove sua culpa. Também procurou fortalecer os cultos tradicionais.
Seu sucessor diferenciou-se dos demais imperadores por ser um filósofo da matriz estoicista, Marco Aurélio, que reinou entre 161 e 180 d. C. Marco Aurélio escreveu Meditações, obra de reflexão filosófica estoicista. Seu governo foi marcado pelas guerras no Oriente que trouxeram grandes epidemias a Roma. Tinha como ideais, segundo Aymard e Auboyer (1976), a justiça e a bondade. Buscou proteger os órfãos e os pobres, no entanto, perseguiu os cristãos. Para ele a razão e a inteligência humana deveriam ser privilegiadas e Deus era uma necessidade intelectual, ao contrário do que os romanos defendiam, pois para eles os deuses eram uma necessidade moral. No entanto, conforme análise de Ohlweiler, Marco Aurélio chegou a pedir ajuda de Deus para viver de modo adequado. Em campanha enfrentou os bárbaros que tentavam invadir as fronteiras do Danúbio, acabou morrendo em batalha. Seu sucessor foi Cômodo, seu filho, em 180 d. C.
Cômodo reinou até 192 d. C. e ficou conhecido por seu mau comportamento. Desprezou o Senado e eliminou muitos de seus membros, acabou sendo assassinado numa das muitas conspirações que enfrentou. Esse imperador encerrou a dinastia dos Antoninos, que ficaram conhecidos como autocratas.
Durante o reinado de Cômodo o cinturão defensivo de Roma foi dividido em quatro frentes, lideradas pelas províncias: Récia, Nórica[6], Panônia e Dácia. Nesse período Roma entrou em decadência, a prática da pilhagem tornou-se comum. A economia romana fundada no trabalho escravo entrou em crise. Em tempos remotos no Império os escravos eram escolhidos por suas especialidades, mas com as províncias elevadas a parte do território romano e seus habitantes a cidadãos, restavam apenas prisioneiros bárbaros para o trabalho escravo.
Esse cenário de crise foi herdado pela dinastia dos Severos iniciada por Septínio Severo, sucessor de Cômodo, eleito pelas legiões do Danúbio. Antes de sua ascensão ao poder em 193 d. C. outros dois aspirantes ao governo foram eleitos e mortos com 87 e 68 dias de governo.
Severo recompensou suas tropas pelo apoio. Também governou autocraticamente, desprezou o Senado e até o final de seu governo em 211 d. C., precisou do apoio do exército para manter-se no poder. Até aqui as dinastias foram amplamente sustentadas pela força do exército, o grande passo para a ascensão da “burguesia” ao poder foi dado por seu sucessor e filho, Marco Aurélio Antonio, vulgo Caracala. Esse ao decretar a Constitutio Antoniniana ou como foi conhecido o Edito Caracala em 212 d. C., que concedia ampla cidadania romana a todos os habitantes do Império forneceu apoio a aristocracia comercial e contribuiu para sua ascensão ao cenário político. Essa atitude desprivilegiou o exército que acabou assassinado-o em 217 d. C., assim como Severo Alexandre o último dos imperadores da Dinastia dos Severos, que foi assassinado durante um motim em 235 d. C. Entre Caracala e Severo Alexandre, o Império romano teve dois governantes: Macrino (217-218 d. C.) foi assassino de Caracala e reinou brevemente e Heliogábalo (218- 222 d. C.) que assumiu com apenas 14 anos de idade e ficou conhecido por seu comportamento excêntrico.
Durante a dinastia dos Severos, o Senado foi reduzido a conselho municipal de Roma e o imperador era visto como um soberano do tipo oriental, apoiado na burocracia e não pelo exército. Nesse contexto, o Império passava grandes dificuldades econômicas, as camadas urbanas ruralizaram-se fugindo da tributação e a falta de dinheiro obrigava o governo a emitir moedas, o que causou grandes ondas inflacionárias.
Sendo assim, entre 235 e 268 d. C. o Império entrou em “anarquia” militar, com sagrações e derrubadas sucessivas de imperadores, foram cerca de vinte e seis governantes em apenas 33 anos. Na lista a seguir indicamos apenas os principais:
1. Maximino I ou Trácio - (235-238 d. C.)
2. Giordano I (238 d. C.) governou por apenas 3 semanas, foi proclamado imperador pelas províncias da África, mas acabou derrotado pelo procurador da Numídia.
3. Giordano II (238 d. C.) filho de Giordano I, morreu logo após o pai, na defesa de Catargo.
4. Pupieno e Balbino (238)
5. Gordiano III (238 - 244) (trono reclamado po Sabiniano 240)
6. Filipe, o Árabe (244 - 249) (trono reclamado por Pacâncio 248, Iotapiano 248, e Silbanaco)
7. Décio (249 - 251) (trono reclamado por Prisco 249 - 252, e Liciniano 250)
8. Herénio Etrusco (251)
9. Hostiliano (251)
10. Treboniano Galo (251 - 253)
11. Emiliano (253)
12. Valeriano I (253 - 260)
13. Galiano ou Galério (260 - 268) (trono reclamado por Ingénuo 260; Regaliano 260; Macriano Maior, Macriano Menor e Quieto 260261; Mússio Emiliano 261 - 262; e Auréolo 268) filho de Valeriano, durante o reinado de ambos o Império passou por uma fase realmente caótica.

Após a fase chamada de anárquica pela Historiografia, uma sucessão de Imperadores Ilíricos[7] chegaram ao trono. Considerados patriotas lideraram o movimento recuperaror do Império e apesar de permanecerem pouco tempo no poder, devido a continuidade das conspirações palacianas, conseguiram formar uma plataforma legislativa e admistrativa que serviu de base para a profunda reforma econômica realizada por Diocleciano. Procuramos aqui listar apenas os principais governantes do período, conforme análise de Edward Gibbon (2005):
1. Cláudio II, o Gótico (268 - 270) foi o primeiro governante ilírico e o responsável pela derrota decisiva dos Godos que pressionavam as fronteiras do Danúbio. Morreu de peste oriunda do campo de batalha.
2. Aureliano (270 - 275) (trono reclamado por Domiciano 270 - 271, e Septímio 271) também se destacou por defender as províncias do Danúbio e a Itália contra os Alamanos. Durante seu governo, impôs rígida disciplina ao exército e conseguiu unificá-lo, restaurando a unidade do Império, inclusive com a re-anexação da Gália e da Síria.
3. Tácito (275 - 276)
4. Floriano (276)
5. Próbo (276-282) (trono reclamado por Saturnino 280, Próculo 280, e Bonóso 280) juntamente com Caro (282-283), seu sucessor, deram continuidade na defesa das fronteiras, empreendeu grande campanha contra os persas, mas ambos foram assassinados por seus soldados. A tradição conta que Caro foi morto em campanha por um raio.
6. Carino (283-285) (co-imperador: Numeriano) filho de Caro, durante o retorno das tropas em campanha preocupou-se em entreter a população romana com jogos espetaculares. Desta forma, o exército em seu retorno investiu da “púrpura imperial” ao general Diocleciano, o que desencadeou um grande conflito entre os dois, que somente teve fim com o assassinato de Carino por uma amante insatisfeita, esposa de um senador.
7. Diocleciano (285-305 d. C.) para muitos a data de início de seu reinado é 284, ano em que foi investido pelas tropas imperador, no entanto, aqui optamos pela datação proposta pelo historiador inglês Edward Gibbon, ou seja, 285, ano em que Carino foimorto. Diocleciano foi considerado o mais ambicioso e bem sucedido entre os últimos imperadores de Roma.
Diocleciano foi o imperador que conseguiu em partes reorganizar o Império, mas o cenário político-econômico herdado por ele não foi fácil. Ele residia em Nicomédia e ao assumir o trono em 284 d. C., tomou como auxiliar Maximiano. Cada um tomou para si um lugar tenente. Diocleciano (1º Augusto) a Galério (César), ambos no Oriente e Maximiano (2º Augusto) a Constâncio Cloro (César) ambos responsáveis pelo Ocidente. Diocleciano estabeleceu essa estrutura administrativa com o intuito de melhor defender as fronteiras do Império e assim fundou a primeira Tetrarquia romana. Os quatro líderes tiveram como responsabilidades resolver os problemas políticos e econômicos pelos quais passava Roma.
Durante o século III o território romano foi assolado pelas invasões de tribos nórdicas em conseqüência da desestruturação e indisciplina do exército romano. De acordo com Marvin Perry,
No século III, houve significativa deterioração na qualidade dos soldados romanos. A falta de lealdade a Roma e a sede de saques levaram os soldados a usar suas armas contra os civis e para impor e depor imperadores. (...) Desde 235 até 285, grassaram os motins militares e guerras civis, e muitos imperadores foram assassinados. O exército negligenciava seu dever de defender as fronteiras e perturbava a vida interna do Império. (...) Aproveitando-se da anarquia militar, as tribos germânicas atravessaram a fronteira dos rios Reno e Danúbio para saquear e destruir. (PERRY, 1999:118-119).

Essa situação obrigou as províncias e povoamentos distantes a se organizarem para a defesa a partir de meios próprios, o que cooperou para fortalecer os senhorios locais. Assim, o Império antes ancorado sobre os centros urbanos e disseminador da “alta civilização”, conforme analisado por Perry, estava em processo de destruição e uma nova sociedade ruralizada nascia.
Entretanto, além das ameaças de invasões, saques, destruição das cidades e interrupção do comércio, o Império ainda sofria com a queda da produção agrícola gerada pela crise escravista, ou seja, a desqualificação da mão de obra escrava e baixa produtividade, conforme já analisado anteriormente. Segundo Leonel I. A. Melo (1984), essa crise econômica forçou o Estado a substituir o trabalho escravo pelo sistema de colonato, ou seja, transformou trabalhadores livres em colonos. Também os escravos foram transformados em arrendatários, recebiam um pedaço de terra para cultivo em troca de renda. Esse acerto entre homens livres, escravos e grandes fundiários de terras tinha como objetivo o aumento nos lucros e na produção. Ao que parece, a historiografia diverge sobre a origem do servo medieval. Para Hilário Franco Jr (1999), essa transformação de escravos e homens livres em colono foi a matiz principal para a formação da servidão medieval. Diferentemente do que propôs Maria Guerras, que defende a atuação do comitatus germânico como a principal origem para formação de uma consciência de ordem e fidelidade, assim como, da servidão. Dessa forma, indiferentemente de uma definição exata da origem do servo medieval, o que nos interessa são os indícios dos caminhos percorridos pela sociedade Ocidental da Antiguidade Tardia no processo de formação da estrutura sócio-econômica medieval.
Portanto, percebemos que além da constituição de um novo status social, o colonato, no século III, ainda tivemos um importante evento definidor do perfil do servo no medievo, pois, segundo Perry (1999), “Para assegurar a produção contínua de alimentos e mercadorias, bem como o recolhimento de tributos, o Estado exigia que os trabalhadores braçais e os artesãos não mudassem de ocupação e transmitissem seus ofícios aos filhos” (PERRY, 1999:119). Sendo assim, esses escravos e homens livres transformados em colonos, no final do século III e princípio do IV, tornaram-se servos, presos a terra que cultivavam.
Diante desse cenário e processo de ruralização, o Estado enfrentava problemas na arrecadação dos impostos necessários para reconstrução das cidades e suprimentos militares, para tanto, o governo instituiu um grupo de agentes, funcionários da cidade (curiales), responsáveis pela cobrança dos impostos e que também se tornaram presos aos seus cargos. Eles muitas vezes eram obrigados a pagar do próprio bolso a diferença exigida pelo governo em impostos. Os camponeses fugiam da terra com o intuito de escapar do pagamento.
Para resolver o problema da arrecadação dos impostos, o imperador Diocleciano entre 285 e 305 d. C., responsabilizou os grandes proprietários de terras pelo recolhimento dos impostos dos colonos em suas terras. Dessa forma, os colonos não teriam para onde servir. Essa atitude aumentou em muito o poder e influência dos proprietários de terras sobre a vida de seus arrendatários, o que em muito serviu de base para a formação da ordem dos belattores durante a Era Feudal.
1.4 O DECLÍNIO DO IMPÉRIO E O NASCIMENTO DA ALTA IDADE MÉDIA: A FUNDAÇÃO DA ERA FEUDAL

O Oriente, aonde ficou Diocleciano, foi chamado Baixo Império Romano[8] e assumiu, segundo Ohlweiler (1990), características dos impérios despóticos do Oriente Antigo. O soberano era considerado deus na terra e essa concepção ao mesmo tempo em que fortaleceu a figura do Imperador em muito acentuou a perseguição aos cristãos. O Império ainda teve duas outras tetrarquias antes da ascensão de Constantino, que tiveram respectivamente como líderes:
· Segunda Tetrarquia: Constâncio (1ºAugusto); Severo (César), ambos no Ocidente e Galério (2º Augusto) e Maximiano Daia (César), ambos no Oriente.
· Terceira Tetrarquia: Galério (1º Augusto e Maximiano Daia (César), no Oriente e Licínio (2º Augusto), Constantino (César), ambos no Ocidente.

Ao contrário da primeira sucessão, a transição entre a segunda e a terceira tetrarquia não foi calma. Após a morte de Constâncio em 306 d. C., de acordo com Gibbon (2005), ocorreram diversas conspirações que derrubaram a Segunda Tetrarquia. A Bretanha apressou-se em proclamar Constantino, filho de Constâncio, como Augusto. No entanto, conforme o estabelecido pela Tetrarquia, quem deveria ser o novo primeiro Augusti era Galério. Esse precisou chamar Diocleciano, antigo Augusto, para restabelecer a ordem constitucional em 308 d. C. O poder finalmente foi dividido entre os tetrarcas: Galério (1º Augusto), Maximiano Daia (César), no Oriente e Licínio (2º Augusto), Constantino (César), ambos no Ocidente. Licínio foi escolhido, por ser filho adotivo de Galério, para ocupar o lugar de Severo morto abruptamente em batalha contra Maxêncio e Maximiano que almejavam usurpar o poder.
Como vemos, a Terceira Tetrarquia nasceu embalada por conspirações e desentendimentos e por isso não funcionou efetivamente. Na verdade, o filho de Maximiano Daia, Maxêncio, permaneceu no poder de seus territórios e ainda conseguiu reconquistar a África em 310 d. C. Maxêncio era considerado Imperador em Roma, mesmo sem fazer parte da Tetrarquia. Tinha o povo e a guarda pretoriana ao seu lado, mas apesar de todo seu poderio, acabou morto por Constantino, na batalha da Ponte Mílvia, em 312. Como exemplo do poderio de Maxêncio em Roma e na África, temos moedas cunhadas em princípios do século IV, com sua esfinge.
Figura nº2:






Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre.
A tetrarquia fadada ao fracasso acabou servindo como trampulim para Constantino ascender ao poder. Pouco tempo depois do acordo de Galério com os tetrarcas, Constantino e Maximiano Daia o obrigaram a reconhece-los Augustos, pois até então eram apenas césares filis Augustorum. Essa atitude de Galério propiciou o fim da tetrarquia, que ocorreu em 311 com sua morte. Nesse ano, o governo do Império entrou novamente em crise, com a morte de Galério (1º Augusto), quatro aspirantes ao cargo passaram a se comportar como Augustos independentes: Maxêncio em Roma (o qual não era reconhecido pelos demais), Licínio em Sárdica, Maximiano Daia em Nicomédia e Constantino em Tréveris.
Após a derrota de Maxêncio, em 312, por Constantino, o império acabou divido entre ele e Licínio.[9] Constantino ficou com o Ocidente e Licínio com o Oriente. No ano seguinte, em 313, juntos promulgaram o Edito de Milão que decretou tolerânica religiosa e liberdade de escolha em assuntos religiosos por parte do Estado. Assim, Constantino passou a apoiar a Igreja Cristã e Licínio a antiga tradição mítica romana. Licínio eliminava os cristãos de seu exército e da administração. Com essa atitude intolerante, não demorou a estourar o conflito com Constantino. Esse derrotou e matou Licínio em 324 d. C. e tornou-se o único imperador Totius orbis imperator e para manter-se no poder ordenou a execução de sua esposa e filho, que apoiavam seu rival morto.
Segundo Indro Montanelli (1985), Constantino transformou profundamente a administração territorial. Instituiu uma minuciosa e complexa burocracia estatal. O novo imperador mateve a divisão do território romano em províncias, instituida por Diocleciano e a ampliou de quarenta e cinco para cem, até a Itália foi dividida, igualmente ao restante do império. Essas províncias, devido a despropiação de poder do Senado, dependiam do imperador, que as agrupou em dioceses (primeiramente doze, quatorze e a posteriori quinze) e instituiu vigários para dirigi-las. Como chefe da administração provincial, ele colocou prefeitos, juntamente com Césares, em prefeituras regionais subordinadas ao Ministro na corte. Somente as capitais Roma e Constantinopla permanceram sob a administração de seus senados, reduzinos apenas a conselhos municipais, que ocupavam lugares honoríficos, no entanto, o poder efetivo pertencia ao prefeito da cidade que dirigia os serviços administrativos. No ano em que derrotou Maxêncio, Constantino dissolveu a guarda pretoriana e a substituiu por uma guarda militar (scholae palatinae), seus cavaleiros foram chamados silenciários que formavam, juntamente com a criadagem, um numeroso grupo de pessoas que tinham contato direto com o imperador. Nesse processo de burocratização do governo, o imperador instituiu uma hierarquização entre os cargos administrativos, semelhante a do exército. Assim, os servidores do império deixaram de ser funcionários particulares do Princeps e sim do Estado.
Essa ordenação administrativa e jurídica permitiu a estabilização política e a recuperação econômica do Império. Diante dessas novas condições, Constantino criou o soldo (solidus), moeda de ouro e depois a moeda de prata, o sílico, o que constituiu uma restauração monetária durável, iniciada em 309 d. C. Ao mesmo tempo que a instituição de moedas de ouro e prata foram um grande avanço econômico para o império, também gerou a desvalorização das moedas de cobre e o consequente empobrecimento da população.
No processo de formação da sociedade feudal, Constantino deu um passo fundamental ao presidir o Concílio de Nicéia em 325 d. C., no qual rejeitaram a doutrina ariana[10] e afirmaram o Credo de Nicéia,[11] para o estabelecimento da relação entre o Estado e a Igreja Cristã. Segundo Otto Alcides Ohlweiller (1990), “Constantino, embora não se tenha convertido ao cristianismo a não ser em seu leito de morte (337), deu à Igreja cristã uma situação privilegiada. Esta transformou-se em poderoso instrumento do poder imperial (Cesário-papismo)” (OHLWEILLER, 1990:174). Esse imperador, como vimos, marcou a ascensão do cristianismo como religião do Estado romano e base da nascente sociedade feudal. Também estabeleceu juridicamente o princípio de hereditariedade para o exercício das profissões e impulsionou o processo de transformação dos camponeses livres em colonos, importantes traços definidores do feudalismo medieval.
Em 330 d. C. Constantino deu início a construção da nova capital do Império na antiga colônia grega Mégara, a qual chamou Constantinopla. Essa tornou-se a capital cristã do Império Romano no Oriente.
Entretanto, de acordo com Ohlweiler (1990), depois da morte de Constantino em 337, o Império romano entrou em uma agonia que durou cerca de 150 anos. Até a ascensão de Teodósio I, o imperador que tornou definitivamente o cristianismo a religião oficial do Estado em 395 d. C., o trono de Constantino teve cerca de quatro sucessores, que se dividiram em casas dinasticas:
1. Casa de Constantino
Constâncio II (337 - 361) (com Constantino II 337 - 340, Constante 337 - 350; filhos de Constantino).
Juliano (361 - 363). Conhecido pelo cognome "O Apóstata", devido seu rompimento com o cristianismo. Era sobrinho de Constantino. Transformou o regime autoritário dos filhos de seus primos em um liberal, condenou gastos excessivos e economizou na administração. Em 363 morreu em campanha contra a Pérsia, sem deixar sucessor.
Joviano (363-364) ficou no poder por oito meses, por não existir sucessores homens descendentes de Constantino, ele foi eleito pela frente do exército que estava na Mesopotâmia. Mas antes mesmo de chegar a Constantinopla foi substituído pelo general Valentiano I.
2. Dinastia Valentiniana
Valentiniano I (364 - 375) (co-imperador Valente 364 - 378); dividiu o império da mesma forma que os filhos de Constantino, com seu irmão Valente, cada um legislava em seus domínios e pela primeira vez o Império do Oriente distancio-se do Ocidente. Valentiano I morreu subitamente durante uma guerra na fronteira do Danúbio e seu irmão desapareceu tragicamente em Adrianópolis numa batalha contra os bárbaros em 378 d. C.
Graciano (375 - 383) (co-imperador Valentiniano II, 375-392); filho de Valentiano I foi aclamado Imperador e Valentiano II, seu meio irmão, co-imperador.
3. Casa de Teodósio
Teodósio I (379 - 395) (trono reclamado por Eugénio 392 - 394)

Essa turbulenta sucessão imperial degradava o Império, que enfraquecido estava à mercê das hordas invasoras. No final do século IV uma nova onda de invasões assolou o Império, que já estava muito abalado devido às guerras sucessórias, pestes e a constante defesa de suas fronteiras. Em 375 d. C., segundo Maria Guerras os Hunos vindos das fronteiras da China empurraram os godos e visigodos para além do limes do Império. Diante da pressão desses povos “bárbaros” que buscavam dentro do território romano proteção e abrigo, a vida econômica se desintegrava e os únicos pontos seguros do Império tornaram-se as vilas dentro de grandes domínios defendidos por seus próprios donos, mercenários e seus colonos.
Durante o reinado de Teodósio I, o Império Romano do Ocidente recebeu os temperos finais para a formação das bases feudais, o cristianismo como religião oficial do Estado, o término do processo de ruralização e a definitiva, porém lenta, supressão da escravidão e do colonato pela servidão. Segundo Ohlweiler, “De fato a servidão expandiu-se rapidamente ao longo dos século IV e V” (OHLWEILER, 1990:174).
Ao morrer Teodósio, o Império Romano do Oriente ficou com seu filho Arcádio e o Ocidente com seu filho Honório. Esses por serem muito jovens ficaram, conforme designado por seu pai, sob a tutela do general Estilicão, quem enfrentaria uma das mais intensas invasões sofridas pelo Império.
Em cerca de cinco séculos, os povos bárbaros adentraram lentamente as fronteiras do Império, porém no final do quarto século, essas paulatinas migrações se tornaram agressivas e fizeram jus a nomenclatura recebida: Invasões.


CONCLUSÃO
Como vimos, a Era Feudal não nasceu no Século V de nossa era, como tradicionalmente tratado pela historiografia, mas foi produto de uma paulatina transformação política, social, econômica e religiosa do Império romano. Nesse processo, foram fundamentais: a ruralização social, a supressão da pequena propriedade, a formação da mentalidade de ordens, dos grandes domínios fundiários, o fortalecimento dos senhores locais e do conceito de servidão hereditário, a divinização do imperador, a legalização da religião cristã e finalmente, a união entre Estado e Igreja. A partir dessas principais características, podemos perceber as linhas que traçaram os rumos da Era Feudal.
Assim, se ainda entre as primeiras dinastias imperiais romanas após o governo de Augusto, a liberdade ou libertas, não era mais entendida em seu sentido máximo, mas, adquirira um novo sentido, conforme analisou Pierre Grimal (1990), no qual ela é entendida apenas como uma consciência e não como independência e ação, no decorrer da Era Feudal, ela se tornou apenas um conceito que designava a dignidade humana, pois cada ordem tornou-se prisioneira de sua própria mentalidade.

BIBLIOGRAFIA
AYMARD, Andrè & AUBOYER, Jeannine. Roma e seu Império: O Ocidente e a Formação da Unidade Meiterrânica. In: História Geral das Civilizações. São Paulo. DIFEL, 1976. (vol. 4).
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[1] Doutoranda em História das Sociedades Ibero-americanas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e professora de História Medieval na Fundação Universidade Federal do Rio Grande – FURG, julmatos@universia.com.br
[2] O Hectolitro é uma unidade de capacidade relativa a cem litros.
[3] O cargo de ditador estava e desuso na República, foi restituído por Lucius Sila que também terminou com a limitação no tempo de permanência na função.
[4] Júlia irmã de Cezar foi dada em casamento a Pompeu como laço de fidelidade entre os dois políticos, no entanto, o casamento de revelou feliz e Júlia passou a fortalecer o laço entre os dois.
[5] O Calendário juliano foi instituído por Júlio César no ano 46 a.C., segundo as indicações do astrónomo alexandrino Sosígenes, tendo vigorado por 1600 anos. Com a conquista de novos territórios, César sentiu a necessidade de uniformizar o calendário, já que outros eram utilizados pelos povos anexados ao império. O novo calendário passou a ser composto por doze meses, perfazendo 365 dias. De quatro em quatro anos, instituía-se um ano bissexto de 366 dias. Os meses passaram a ter 30 dias (intercalados com meses de 31 dias). O facto de, hoje, os meses de Julho e Agosto (na época, quintilis e sextilis) terem 31 dias, sendo meses seguidos, devia-se a terem o nome de imperadores. Um décimo terceiro mês, que existia, foi extinto. Foi necessário, no entanto adicionar 67 dias ao primeiro ano deste calendário. O vigésimo quinto dia de Março, data na qual começava o ano passou a ser o primeiro de Janeiro, de forma que o ano de 45 a.C. ficou conhecido como o Ano da Confusão. O Calendário juliano foi substituído pelo Calendário gregoriano a 24 de Fevereiro do ano 1582. O novo calendário foi promulgado pelo Papa Gregório XIII e foi adoptado nos países ocidentais. Na Rússia e em outras zonas de influência cristã-ortodoxa, foi optado pela permanência no calendário juliano (este é o motivo das confusões das datas na Revolução russa.

[6] A Nórica (Noricum, em latim) era uma província do Império Romano, lindeira ao norte com o Danúbio, a oeste com a Récia e a Vindelícia, a leste com a Panônia e ao sul com a Panônia, a Itália e a Dalmácia. Corresponde, aproximadamente, à maior parte dos atuais estados austríacos da Estíria, Caríntia, Salzburgo, Alta Áustria e Baixa Áustria, além de parte da Baviera, na Alemanha.

[7] São assim denominados por serem originários da região da Ilíria.
[8] Não podemos confundir com a divisão temporal em Alto Império Romano e Baixo Império Romano, pois essa não indica lugar, mas momento histórico do Império. O Alto Império é considerado o período de apogeu da civilização romana e o Baixo Império é o período de anarquia militar, de transferência da capital para Constantinopla, da elevação do Cristianismo a religião do Estado e das invasões chamadas bárbaras.
[9] Os dois já haviam oficializado sua união através do casamento de Constantino com a irmã de Licínio.

[10] Fundamentada por Ário (morto em 336), era padre em Alexandria, pregava que Cristo era filho de Deus, mas não era verdadeiramente Deus. Ário salientou a natureza humana de Cristo e a importância de seu sacrifício para o homem. Foi no decorrer dos século IV ao VII a doutrina cristã mais difundida entre os povos bárbaros.
[11] O Credo de Nicéia afirmou que Cristo era verdadeiramente Deus e valorizou sua divindade.

MATOS, Júlia S. Educação em Roma. In: FLORES, Moacyr. Mundo Greco-romano: o Sagrado e o Profano. Porto Alegre. EDIPUCRS, 2005.


Júlia S. Matos*
A história de Roma tem exercido fascínio por diversas gerações e não deixou ainda de o fazer. Os olhares especulativos de curiosos ou estudos de historiadores e arqueólogos estão geralmente voltados para a estrutura religiosa, governamental ou jurídica romana. Isto, porque sabemos a muito de sua forte influência em nossa sociedade. O Direito, as Leis, são exemplos desta influência, além é claro da arquitetura, das artes, da própria religião e tantos outros. No entanto, existe algo não muito estudado que exerceu grande influência na sociedade atual: a Educação. Nossa sociedade cristã ocidental em muito espelhou-se no sistema educacional romano ao constituir escolas e universidades.
Alguns historiadores afirmam que Roma não tinha um sistema educacional formado. Realmente, não como o concebemos hoje, pois a educação estava a cargo da família e não do Estado. No entanto, vemos que "As idéias e métodos educacionais do mundo antigo não morreram com a queda do Império Romano. Eles sobreviveram, até certo ponto, na Idade Média e foram conscientemente revividos pelos humanistas dos séculos XV e XVI".2 A partir desta citação podemos ver que na realidade somos herdeiros da tradição retórica romana e de seu sistema educacional.
Para melhor compreensão, entendemos que a história de Roma e do império que se tornou não pode ser estudada como um todo uniforme, mas deve ser dividida entre seus principais momentos. Primeiramente precisamos olhar seus primórdios como Realeza, depois como República e por último como Império, cada momento possui suas peculiaridades culturais. Claro que não iremos generalizar, neste trabalho apresentaremos apenas a educação em Roma, a capital do império, pois as diversas regiões romanas possuíam costumes e cultura diferenciados.
O ensino das primeiras letras apareceu em Roma por volta do século IV a. C. ainda no período da Realeza, no século III a. C. aparece o ensino que podemos considerar como o secundário, o ensino superior só apareceu no século I a. C., no final da República romana e tomou grande impulso durante o Império. "... o Estado romano não toma a seu cargo a tarefa de educar, que ficou deixada à iniciativa particular, (...) Só depois do advento do cristianismo, por volta do século IV d. C., é que surge e se espalha por todo o Império a schola pública, mantida pelos cofres dos municípios".3
Primeiramente devemos observar que a sociedade romana era patriarcal, ou seja, o homem era o líder. O pater liderava a família e a sociedade. Os bens, a esposa, os filhos, os escravos e nome pertenciam ao pater. A família romana foi a principal unidade social durante toda a República e o Império, sua origem está na gens. A gens pode ser definida como um grupo de pessoas que possuíam um mesmo ancestral comum e sua origem reporta ao período da Realeza romana. "A gens tinha seus túmulos domésticos e cultos particulares; e todas elas se reuniam para tomar decisões coletivas".4 Assim, a família romana se firmou como uma subdivisão da gens e passou a abranger tudo que se encontrava sob o domínio do pater familias5 . "Note-se que a sua relação com o poder político era bastante forte uma vez que os patres que compunham o Senado identificavam-se com os patres familiarum ou eram por estes escolhidos".6 A vida social e econômica romana estava alicerçada na propriedade rural e seu cultivo agrícola. Este sistema de produção familiar assegurava a existência e a permanência da família patriarcal romana.7 Por isso, não é difícil imaginar quem era o principal responsável pela educação do filho homem, o pater assumia a educação do filho a partir dos seis ou sete anos e somente durante a República é que surge a cátedra ou retórica para formar os oradores.
Durante a Realeza romana o pai educava o filho para a religião, sociedade e para a guerra. A educação romana desde a Realeza até o Império era voltada para a guerra, mas principalmente para o culto religioso. A religião era o centro da vida romana. Em Roma a medicina neste período, por exemplo, não se desenvolveu, pois todo o tipo de doença era considerada castigo divino e a cura somente poderia ser concedida pelos deuses. Assim, existiam deuses para todo o tipo de doença e orações próprias para qualquer enfermidade. A casa familiar possuía muitas imagens para a proteção e o jovem desde cedo aprendia os rituais e o respeito aos deuses. Aos jovens era ensinado que no lar uma chama de fogo não deveria ser apagada nunca, pois, representava a deusa da vida. A atmosfera do lar era voltada à religião, na entrada central montando guarda estavam as almas dos antepassados, em qualquer local que o menino fosse não poderia andar sem tropeçar em algum guardião sobrenatural. A família era composta por vivos e mortos. "Todos juntos, formavam um microcosmos, não somente econômico e moral, mas também religioso, do qual o pater era o pai infalível. Fazia os sacrifícios sobre o altar da casa. E em nome dos deuses dava ordens e repartia os castigos".8
Nas palavras de Cícero vemos a importância que os romanos davam a educação ministrada pelo pater na vida do jovem. "A melhor das heranças que os pais podem deixar aos filhos, mais valiosa do que todo o património, é a glória da sua virtude e dos seus feitos, glória à qual deve ter-se por crime e injúria maculá-la".9 Por isso, o pai era o responsável em passar os ritos, as responsabilidades e a educação para a vida. Até os sete anos a criança era educada pela mãe e a partir de então passava à responsabilidade do pai, acompanhando-o em todos os seus afazeres, fossem agrícolas ou públicos, como nas Assembléias. Desde a mais tenra idade ao jovem era ensinado que a família constituía uma verdadeira unidade militar e seus poderes estavam concentrados na figura do pai, o paterfamilias.10 A educação se dividia em conhecimentos práticos e teóricos, além do treinamento militar.
A educação para o exército era importante, em Roma somente aquele que tivesse servido ao exército era considerado cidadão. Desta forma, os ginásios a moda grega eram dispensados pelos romanos, "Os patres romanos preferiam fortalecer os músculos de seus filhos colocando-os a trabalhar na enxada e no arado e depois entregando-os ao Exército...".11 Assim como a educação era diferenciada de acordo com a situação financeira, o cumprimento do serviço militar também. Quanto mais rico o jovem mais anos de serviço militar deveria cumprir e mais impostos pagar. "Para quem quisesse ingressar em uma carreira pública, o mínimo eram dez anos".12 Desta forma, vemos porque somente as famílias mais ricas tinham representantes em cargos públicos, pois só os ricos podiam dedicar tanto tempo ao exército, afastados do trabalho. No entanto, todos deveriam servir ao exército para tornarem-se cidadãos, para votar era preciso ter sido soldado. Os jovens ingressavam nas legiões13 romanas aos dezesseis anos. A disciplina era tão dura e o trabalho tão árduo que todos os jovens preferiam o combate. Ao jovem que exercia dez anos de serviço militar era preservado o direito de empreender a carreira pública quando voltasse para casa.
Até 111 a. C. cidadania e exército eram sinônimos e o cidadão definia-se como soldado14 , após esta data surgiu o exército profissional que deixou de congregar todos os romanos. Apesar desta transformação, o exército não deixou de ser extremamente importante para a sociedade romana.15
A língua romana, o latim, não possuía estrutura gramatical como o grego, vamos ver que somente após o contato com os helenos o rústico latim romano estruturou-se gramaticalmente. Desta forma, os romanos se desenvolveram habilmente na oratória, muito importante para a vida pública em Roma durante a República.
A religiosidade tendia a disciplinar o menino romano. Disciplina era a forma como os romanos entendiam o ensino da cultura. A religião era a forma pela qual a cultura e as lendas romanas eram ensinadas aos jovens. Até as guerras púnicas, entre 264 a 146 a. C. período de grande influência grega, eram os paters os encarregados da educação do filho. Somente, a partir do maior contato com a cultura helena os romanos entregaram a educação de seus filhos a um tutor ou um paedagogus16 . O paedagogus não era propriamente o professor, pois neste período já existiam as escolas, e sim aquele que levava o jovem até a escola, como na Grécia. Como a convivência entre o menino e seu paedagogus passou a ser mais assídua, este assumiu algumas funções que antes eram exclusivas da família, como o ensino das lendas e da religião. A figura do pedagogo surgiu durante a República, com a expansão e ascensão econômica romana, mas, somente entre a famílias ricas. Para o jovem ter um pedagogo era sinal de status social. Por isso, muitas famílias ricas do interior romano enviavam seus filhos para estudarem em Roma, acompanhados de um paedagogus. Normalmente, após a educação romana estes jovens eram enviados para o aprimoramento de seus estudos na Grécia, o que muito legitimava o poder econômico da família. Os romanos apesar de rústicos perante os gregos eram sedentos de conhecimento e foram alunos exemplares. Os romanos institucionalizaram a profissão de professor ao contratar professores gregos ou italianos helenizados para as primeiras escolas romanas no século III a. C. "Os professores gregos vieram para Roma e os romanos de bom-grado sentaram-se aos seus pés".17
Ao jovem era ensinado a fidelidade ao estado, a fecundidade, aceitação da Lei, respeito, autoridade, firmeza frente a morte e valorização do sacrifício na guerra. O que importava ao romano não eram as intenções, mas as ações.
A educação romana saiu dos lares para as primeiras escolas durante o período da República, como já foi dito. Estas não estavam sob o comando do Estado, na verdade eram particulares. A intenção era preparar o jovem para a vida pública e cargos senatoriais. Durante a República era a educação retórica a que mais se destacava, pois preparava o jovem para a oratória. O orador par os romanos deveria ser profundamente instruído em literatura, filosofia, história e leis romanas. No entanto, as escolas de retórica ensinavam a declamação e a composição de discursos. Outras escolas assim surgiram para melhor preparar o jovem para a oratória. A escola romana não era como nossas escolas hoje, com vários professores de matérias diferentes ministrando aulas em um mesmo local, cada matéria, gramática, retórica, calculo, música e outras, era uma escola separada. Existiam assim, escolas de gramática, de calculo e posteriormente de retórica. O ensinamento de retórica e composição de discursos era ministrado após o aprendizado de gramática. Na escola de gramática o jovem aprendia a história romana, a literatura e principalmente o grego. Os romanos cultos normalmente escreviam e se expressavam em grego, por este idioma possuir uma estrutura gramatical mais refinada. "Todavia, o próprio fato dos romanos adotarem o sistema grego é de inegável importância histórica e, por mais fiel que fosse essa adoção, eles deram um certo caráter romano ao que haviam tomado emprestado".18 O próprio latim se desenvolveu gramaticalmente após o contato com o idioma grego. Os castigos eram comuns e a disciplina aplicada era rígida. Quintiliano, grande orador romano autor de Institutio Oratória, censurava o castigo físico e enfatizava o valor da emulação.
Ao contrário do que se pode pensar foi durante o Império que a educação romana se refinou. Conhecimentos foram aprimorados, a medicina antes considerada desnecessária diante da vontade divina, teve grande desenvolvimento neste período. Surgiram associações de médicos com a função de escolas, sobretudo provenientes da Magna Grécia e do Oriente helenizado. Na época imperial foi também organizado um serviço médico regular junto ao exército e à frota naval.

A retórica instrumento indispensável para a vida pública durante a República foi aprimorada nos tempos imperiais. "Sob o Império, a educação floresceu como nunca antes, havendo numerosas escolas tanto em Roma quanto nas províncias".19 A Escola deste período centralizava-se na figura do mestre auxiliado as vezes por um assistente que ensinava apenas uma disciplina. O ludi magister era o mestre da escola primária aonde o menino aprendia a ler, escrever e os elementos básicos da aritmética. "... havia o grammaticus grego e o grammaticus latino, o rhetor grego e o rhetor latino; havia escolas de geometria e música e, numa posição inferior, o calculator ou professor de aritmética comercial e o notarius ou professor de taquigrafia, cuja escola foi tão popular no final do Império".20 Os jovens freqüentavam várias escolas ao mesmo tempo para completar sua educação.
O orador ideal para os romanos era aquele que tivesse freqüentado a escola secundária grega e latina, apreendesse geometria e música, além de passar por um professor de dicção e um instrutor físico antes de ingressar na escola de retórica. A educação filosófica era voltada à moral e sabedoria, esta vinha depois da retórica. Porém as escolas consideradas mais importantes pelos romanos eram a gramática e a retórica, por onde passavam os romanos ricos destinados à carreira pública. Na escola de gramática o menino ficava dos treze aos quinze anos, onde aprendia as minúcias das línguas grega e latina, mas a maior parte do tempo dedicava a leitura dos clássicos das duas literaturas. O grammaticus ensinava teoria e não composição, esta o menino aprenderia quando ingressasse na escola de retórica. A escola de gramática era considerada o secundário. Durante o Império os grammatici tenderam a aplicar os primeiros exercícios preparatórios para composição de discursos próprios da retórica, os progymnasmata. Estes exercícios não incentivavam a originalidade de idéias, mas o desenvolvimento do tema proposto, ampliando os domínios dos recursos de linguagem do aluno. Na escola de retórica o jovem romano permanecia dos quinze aos dezoito anos onde aprendia teoria retórica e exercitava-se em constantes declamações.
"A declamação era um fim em si mesma, uma forma de oratória de direito próprio, e os retóricos declamavam em público, diante de platéias interessadas".21 Os declamadores apresentavam temas fantásticos e melodramáticos com afastamento do mundo real, com trechos vistosos e rebuscados buscavam o aplauso imediato. As escolas romanas não buscavam formar o caráter da criança, ou ensinar religião, patriotismo e moralidade, ela apenas almejava ensinar um ramo de conhecimento, os outros ensinamentos eram deveres da família. A educação romana despertava gosto vitalício pela leitura. Sabemos de homens como Plínio o Velho que não paravam de estudar ou compor nem na hora do banho ou das refeições.
Em Roma foi grande o índice de alfabetização, não eram somente os homens que tinham acesso a educação, mas as mulheres e os escravos, cidadãos e estrangeiros também estudavam. Apenas a educação retórica era voltada aos homens, pois preparava para a vida pública e cargos senatoriais.
A mulher em Roma não era considerada inferior ao homem, mas era subordinada a este quando casada. Como já dito, na família romana era o pater que tinha o poder de decisão sobre os filhos e esposa.
Os romanos gostavam de escrever e o faziam até nas paredes, eram muito comuns os grafites. Os ricos escreviam em tábuas de cera, posteriormente em papiros e os pobres com estiletes nas paredes, onde expressavam seus pensamentos.22
A educação romana como vemos alcançava de forma diferenciada as diversas castas da sociedade, fossem plebeus ou patrícios, cidadãos ou estrangeiros. Até o grego considerado língua refinada pode ser encontrada em grafites nos muros dos palácios romanos. "Mesmo numa parede, vemos uma pessoa qualquer teorizar e, por que não, mostrar que se filosofava, em grego, também nas camadas populares".23
Desta forma, podemos concluir que a educação em Roma não era excludente, mas diferenciada, voltada para cada grupo e suas funções. Ao homem público educação retórica ao homem agrícola educação familiar.
* Professora do Departamento de Biblioteconomia e História da FURG, mestre em História pela PUCRS e coordenadora do GPHA - Grupo de pesquisa de História Antiga.
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2 NIÉRAUDAU, Jean Pierre. Être Enfant à Rome. Paris: Belles Lettres, 1984, p. 210.
3 BRANDÃO, Carlos R. O que é educação. 3 ed. São Paulo, Brasiliense, 1995, p. 51.
4 Id, 1986, p. 60.
5 Pai de família.
6FLORENZANO, Mª Beatriz. Op.cit, 1986, p. 61.
7Conforme, AYMARD, Andrè & AYBOYER, Jeannine. Roma e seu Império: O Ocidente e a Formação da Unidade Mediterrânica. Vol. III. Rio de Janeiro, Editora Bertrand, 1993, p. 261.
8 MONTANELLI, Indro. História de Roma. 2 ed. Barcelona/ Espanha. Plaza e Janes Editores, 1985, p. 67.
9 Cícero, Dos Deveres, 1.33.121, trad. de Maria Helena da Rocha Pereira, in Res Romanae.
10 Conforme, Montanelli, Indro. Op. cit, 1985, p. 84.
11 MONTANELLI, Indro. Op. cit, 1985, p. 70.
12 Id. 1985, p. 70.
13 A legião era a unidade fundamental do exército romano, constituída por quatro mil e duzentos infantes. Cada legião tinha seu Estandarte e era questão de honra impedir que este caísse em mão inimigas. A legião estava dividida em seis sólidas linhas de quinhentos homens em cada uma. O que constituía a força deste exército era a disciplina.
14 Após esta data em 107 a. C. Caio Mário então consul empreendeu uma reforma no exército, insituindo o pagamento de salário (soldo) para os soldados profissionais.
15 Conforme, FUNARI, Pedro Paulo Abreu. Roma: vida pública e privada. São Paulo, Atual, 1993, p. 55.
16 Este poderia ser escravo ou liberto, normalmente era um escravo-pedagogo, também chamado escravo-tutor.
17 CLARKE, M. L. Educação e Oratória. Capítulo XI. In: BALSDON, J. P. V. D. O Mundo Romano. Rio de Janeiro, Editor Zahar, 1968, p. 200.
18 CLARKE, M. L. Educação e Oratória. Capítulo XI. In: BALSDON, J. P. V. D. O Mundo Romano. Rio de Janeiro, Editor Zahar, 1968, p. 199.
19 CLARKE, M. L. Educação e Oratória. Capítulo XI. In: BALSDON, J. P. V. D. O Mundo Romano. Rio de Janeiro, Editor Zahar, 1968, p. 206.
20 Id. 1968, p. 206.
21 CLARKE, M. L. op. cit, 1968, p. 206.
22 FUNARI, Pedro Paulo Abreu. Roma: vida pública e privada. São Paulo, Atual, 1993, p. 55.
23 FUNARI, Pedro Paulo Abreu. Id, 1993, p. 55.